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terça-feira, 9 de agosto de 2011

Morno e sem sal


O chão sujo de borracha revelava minha luta contra a Física. Optei por dar um tempo, arejar as ideias. Escrever sempre ajuda a acalmar. Após alguns minutos e várias frases apagadas, comecei a irritar-me com a minha própria falta de assunto. A inspiração parece ter ido embora junto com os fins que coloquei em minha vida. Sentia um calor angustiante, que me fazia pensar no quanto está tudo morno: a vida, o dia, as palavras. Nada atormenta mais do que essa calmaria generalizada. Por um minuto, eu senti saudade daquelas confusões que eu deixei pra trás. Não delas propriamente, mas do turbilhão de sentimentos que elas proporcionavam, agitando-me e preenchendo linhas. Eu não desejava aquele passado de volta, mas me consumia de vontade de um presente tão intenso quanto. Muito mais, até. Olhei ao meu redor e só enxerguei livros mortos, expectativas agonizantes e um amontoado de nuvens no céu. Comecei a condenar todos esses mesmos livros pela minha fase frustrante. É muito difícil ter o futuro nas mãos em um momento em que se quer jogar tudo para o alto. E verdade seja dita, eu nunca gostei de nada sem tempero, não é agora que vou apreciar o sem sal. Estou enfarada dessa sopinha rala que virou a minha vida. Garçom, traz a pimenta mais forte, por favor, porque isso aqui tá indigesto. Só eu estou enjoada desse prato? O que? Não me diga isso, senhor! Só mudarão o menu daqui a alguns meses? Me rendo então, vou seguir nessa dieta forçada, vivendo sem sal. E deixa eu ir ali, porque essa noite eu tenho um encontro com Pitágoras.

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