Páginas

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Vida real



Oi Naty,
Sinto-me enganada com toda aquela história de príncipes e abóboras. Até as menos românticas, como eu, crescem projetando aqueles contos de fadas em suas vidas. Pouco tempo é o bastante para percebe que, na maioria das vezes, o encanto acaba antes mesmo da meia noite. Não quero parecer pessimista ou amarga, mas é impossível negar que tudo aquilo que nos contaram é tão irreal quanto o Papai Noel. Não desacredito no amor; também não generalizo os homens, embora desconfie de todos eles. O que, no fundo, me soa utópico é o tal felizes para sempre. Se não tivessem nos dito que tudo seria fácil, talvez teríamos nos preparado mais e nos desapontado menos. Fica difícil aceitar os defeitos e os erros, quando se cresce em busca do homem perfeito. Passei alguns segundos me perguntando se esse amor sólido e contínuo era algo comum no passado e se essa dificuldade afetiva é apenas uma característica da nossa sociedade. Será isso? De qualquer modo, eu não consigo acreditar na imutabilidade das relações. Não é possível viver sem transformações, sem conflitos, sem queixas. Ninguém é tão perfeito a ponto de atender totalmente às expectativas do outro, assim como ninguém é tão cego de modo a se sentir totalmente satisfeito. Não estou dizendo que o afeto necessariamente diminui, talvez ele até cresça com as provações. O que eu nego totalmente é a possibilidade de se manter um relacionamento "como se fosse a primeira vez". A empolgação muda, a tolerância muda, o tesão muda. Reformulando, eu até posso crer no felizes para sempre, mas felizes sempre, é outra história. E é nesse momento que os contos de fadas me decepcionaram, por terem me feito confiar em um encanto que nunca se perderia. Sou mimada, sim, não gosto da ideia de perdas. Mas, talvez, os contos de fadas não tenham mentido pra mim; eles simplesmente podem ter "acabado" antes dos conflitos começarem. Então é isso, o "viveram felizes para sempre" foi dito cedo demais... 

"Mas alguma coisa tinha morrido em mim. E, como nas histórias que eu havia lido sobre fadas que encantavam e desencantavam pessoas, eu fora desencantada..."  (Clarice Lispector)

Nenhum comentário:

Postar um comentário