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quarta-feira, 11 de julho de 2012

bagunça a dois


o despertador tocava sempre no mesmo horário e ela, meio tonta, levantava com a cabeça a mil, cheia de  compromissos. Tomava um café rápido, forte, corria pra academia, queria um corpo perfeito. No trabalho era muito requisitada, resolvia qualquer problema da empresa, nunca chegava atrasada. Saía dali cansada, às vezes encontrava umas amigas pra conversar a toa, às vezes só queria dormir. Era autossuficiente, cheia de discursos feministas e mania de perfeição. Ela tinha tudo sob seu controle.
Um dia conquistou aquele cargo que cobiçava há meses e foi comemorar num pub com colegas. Era tarde, todos foram embora, e ela queria ficar um pouco mais. Estava sozinha na mesa, tomando a saidera, quando um homem sentou-se ao seu lado. Eles começaram a conversar, embora ela não tivesse intenção alguma de ceder a alguém que acabara de conhecer. Ele falava sobre viagens, bandas de rock e ela só sabia se gabar da promoção. Ele parecia imaturo, inconsequente, pouco preocupado com carreira. Mas era divertido, ela ria de tudo, embora um pouco embriagada, é verdade. Audacioso, pediu para conhecer sua casa, "você é o tipo de mulher que separa as roupas em degrade" - afirmava ele entre risos. "Eu nunca levaria um homem pra casa sem conhecê-lo, mas uma noite não pode fazer tanto mal" - ela pensou. A noite foi perfeita, ele era incrível, ela estava super a vontade. 
Acordou com a cabeça explodindo, assustada, havia perdido a hora. Sentiu um cheiro de queimado e correu pra ver o que era. Encontrou um homem de cueca na sua cozinha, "não sou bom com essas coisas". "Você precisa ir embora, perdi hora, meu chefe vai me matar"- dizia ela correndo pro banho. Ele sorriu, pediu que ela se acalmasse. Entrou no banho com ela, o que a fez perder mais tempo. Ele saiu molhando a casa inteira, deixou a toalha sob a cama, o creme dental ficou sem tampa em cima da pia. Pregou um bilhete no espelho com o seu número de telefone, despediram-se. 
Ela chegou atrasada. Passou o dia distraída, pensando naquele homem maluco que invadiu sua casa e fez tanta bagunça. Ele bagunçou não só a cozinha, mas também seus sentimentos. Ele não era o seu tipo, mas ela queria aquilo. Combinaram de se ver novamente, e novamente, e novamente. E ele bagunçou sua vida, fez com que ela perdesse a hora muitas vezes, misturou vermelho e amarelo em seu armário, apareceu com flores no meio de reuniões. Mas hoje ela sabe que toda aquela organização em sua vida era um grande vazio. Ele se tornou mais responsável, ela menos. Porque o amor é uma constante troca, que bagunça, e descabela, e confunde. Mas fazer bagunça a dois é muito melhor que ser perfeito sozinho. Aliás, tem como ser perfeito sozinho?

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