Encolheu-se em um cantinho qualquer como se desejasse dar um abraço apertado em si mesma. Proibiu que a tristeza tomasse forma líquida e engoliu todo o choro daquele jeito que faz doer a garganta. Estava mal por ver mais uma desistência diante de seus muros altos; revoltava a presença daquele muro maldito. Saiu de casa e trancou a porta como se tentasse prender ali todos os seus medos idiotas, queria voltar e não encontrá-los mais. Caminhou pela rua chutando todas as pedrinhas do chão, tentou fazer do final de tarde seu abrigo. Sentou em um banco de praça e sentiu-se especialmente invisível, observando todas as vidas que passavam por ela. Viu casais, famílias, solitários, cachorros. Sabia que estava errada e que não podia cobrar das pessoas o que nunca esteve realmente disposta a oferecer. Só queria encontrar a peça defeituosa e levar pra pessoa certa consertar. Mas questionava o significado de "pessoa certa", porque parecia mais uma ideia usada como esconderijo, prorrogação do agora. Ou não. Escondeu o rosto entre as mãos, não sabia mais o que pensar nem o que fazer nem como mudar.
Sentiu então uma mãozinha pequena tocar a sua e viu dois olhões pretos arregalados. Não soube o que responder quando a garotinha perguntou -"você tá triste, moça?". Quis dizer que não, mas as lágrimas não enganariam nem criancinha. "É que crescer dá medo, sabe?". Mas a pequena olhou com desdém e disse "quero ser grande logo, não vou ter medo de nada". Ela riu da audácia da garotinha e quis saber seu nome, mas foi atropelada por um "Você também não precisa ter medo. Quando alguma coisa te assustar, você tem que lembrar que já é grande e forte e beeeeeeem maior que o monstro". Ela riu de novo, estava recebendo conselhos de alguém com um terço da sua idade e estava gostando deles. A menina tocou seu rosto, encheu as bochechas em um sorriso doce e falou "você queria ser adulta como eu, queria andar o mundo todo, queria ser vista por onde passasse, queria um príncipe, queria conseguir que tudo fosse do seu jeito. Esqueceu? Você tem que conseguir, você me prometeu, moça". Ela olhou assustada para a garotinha e começou a reconhecer aquela coragem, aquela vontade, os olhões pretos.
(...)
Acordou assustada no sofá, meio atormentada, sem saber o que era sonho, o que era verdade. Andou até o espelho do banheiro, viu dois olhos pretos e uma resposta simples: não precisava mudar, só precisava voltar a ser aquela garotinha audaciosa. Sem medos, sem muros, sem empecilhos... sempre acreditando no final feliz.

Nenhum comentário:
Postar um comentário