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terça-feira, 12 de abril de 2011

Memória sensorial

Oi Naty,

Se eu fechar os olhos, ainda posso sentir o cheiro de massinha de modelar que havia no pré-escolar. Com essa mesma facilidade, sou capaz de ouvir minha voz ecoando na sala de ballet, entre um plie e outro.
Eu poderia descrever com exatidão o gosto da torta de maçã da minha avó e as dores dos tombos de bicicleta que ainda parecem latejar em meus joelhos marcados.
Eu consigo me lembrar de cada minucioso detalhe da minha boneca favorita e ainda sinto a jabuticaba estourando dentro da minha boca, enquanto eu tentava subir mais um galho. Eu ouço o som das ondas quebrando na praia e sinto a brisa levar meus cabelos, enquanto eu sinto o cheiro de mar.
As aulas de dança do ventre eram aromatizadas por um sutil incenso de canela e a cor do batom que eu roubava da minha mãe parece ainda colorir os meus lábios.
Eu sinto em minhas mãos, a forma de cada presente de natal embrulhado, que eu tateava em uma explosão de curiosidade, enquanto o relógio não apontava meia noite. Essas mesmas mãos, se lembram daquele toque frio que se divertia tanto ao notar o quanto elas suavam em sua presença.
Um certo perfume ainda parece estar impregnado nos meus cabelos, tirando o meu sono e o meu juízo.
Cada dose que eu tomei, parece queimar novamente minha garganta, agora. Cada desesperado "eu te amo" que disse, agora me faz rir pela brevidade dos meus sentimentos. As lágrimas que escorreram pelo meu rosto, me arrancam sorrisos pela fácil superação de cada uma. Nenhum beijo teve o mesmo sabor do outro, e eu me recordo até daquele primeiro, escondido, apressado, sem paixão. Também lembro da sua boca encostando na minha e pedindo mais uma chance, em vão.
Eu posso sentir o gosto de cada brigadeiro de panela,  ouvir todas as músicas que marcaram algum momento, reproduzir cada abraço sincero que eu recebi, cada palavra boa que me disseram...
Eu tenho uma coleção de sensações dentro de mim. Tosas as coisas que merecem ser registradas no livro da minha vida são salvas pela minha memória, para que nunca se percam.
Eu gosto de levá-las sempre comigo, para que eu nunca me esqueça dos momentos que me fizeram feliz, das situações que me fizeram crescer, das pessoas que partilharam algo comigo e principalmente, das experiências que criaram a pessoa que sou hoje.

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